quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Verso Vivo

Cansei-me do papel,

quero tatuar os meus poemas no teu corpo.

Quero provar o teu gosto a poesia,

morder o verso despido

desfolhar o teu corpo por entre o segredo.

Desenhar cada letra devagar,

juntar ao café da tua pele

ao aroma do teu sorriso,

a firmeza do teu peito

o cansaço das tuas pernas.

Quero beber-te

consumir-te numa tarde,

quando for poeta

e tu meu poema.



Pedro Afonso


in "Artífices das Palavras"

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Noites em Lisboa

Atravessa a rua o mais clandestino dos sentimentos,

desliza em passadas comprometidas

com olhos rasgados de quem possui todas as observações,

vem pelo vendaval de silêncio que lhe sopra a calma

e esgueira-se pelas varandas e estendais,

contorna as nódoas de luz pelo chão.

Acende um cigarro,

corrompe as silvas de fumo

e estreita-se até ao próximo beco

cheio de histórias e garrafas secas.

Faltam vinte minutos para as quatro da madrugada

falta meio respirar para a noite ser mais noite

e cobrir a cidade de luzes frouxas,

as estatuas mais verdes bebem dos sonhos

que acabam de sair pela janela,

a poesia sai à rua,

vejo-a disfarçada de poça de água,

escondida nos arbustos a espera do orvalho matinal,

livre sobre o voou e o sono dos corvos

eu sei que ela lá está,

prova-se à distancia a textura granulada das palavras

e respira-se a paciência de todos os livros que foram escritos.

Troco olhares com esse sentimento nefasto, sadio.

Atravesso a rua em jeito néscio,

afasto os meus olhos para o chão,

subo a ladeira,

e apercebo-me de toda uma vida que perdi naquele instante.


Pedro Afonso

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Rouba

Perdoa-me por tudo o que provei

Desfaz todas as minhas duvidas com o teu cheiro

Chama por mim…

Enlouquece o jeito nefasto da minha boca

Inrronpendo a duvida de olhos vendados,

Aclara a cor do meu abraço…

Se prender a música ao meu corpo,

Então a harmonia é toda tua

Deixa-me só roubar o silêncio entre cada nota

A vergonha do teu rosto

E todo o tempo que guardarei para nós.



Pedro Afonso

Debussy

Lembras-me…

as dobras de um pedaço de seda

pintando as arestas da minha calma.


Menino matreiro,

com o toque sedento de sentidos

descobre a intenção da minha melodia,

a disposição do meu corpo,

o lábio mordido nas harmonias

o gesto nu em que me envolvo.

Bebe-me,

junta a tua mão ao meu prazer

o teu conforto ao meu regaço,

adormece a tua voz nos meus olhos,


jardins de noites, sudários discretos,

espelhos lunares de tons sustenidos,

encontra-te comigo quando o sol nascer

no depois…


Pedro Afonso

O tempo que já lá vai...

Cada bebedeira.....
É um exercício de respiração
um inspirar para recuperar folgo

um olhar para traz
o desdém inaugura cada trago
verga-se a minha língua a tua vontade
o vento geme pelo gargalo
a ânsia da lugar a calma
e bebo-te

bebo-te o corpo
deixo escorrer o teu olhar pelo meu queixo
limpo-me contra o sorriso

Obrigado.


Pedro Afonso

A Nossa História

Tenho saudade de contar histórias sobre o teu cabelo
plantar jardins sobre a nossa memória
e retocar os jeitos com que a noite se ri

Existe nas costas do silêncio uma calma secreta
no amarelo da cidade
no som frio do tejo a caminho do bairro...

Abrigo a recordação do fado no ar,
torna-se intoxicante a leitura da tua voz
o desejo
a lua
e o exoterismo barato
a loucura
e a desilusão

existe na catacumba de um sonho
a paixão de ser mais que homem


Pedro Afonso