domingo, 26 de novembro de 2006

"O observador"

Observo os poemas da natureza
cada falésia, cada brisa de Maio
cada oceano, cada deserto, cada floresta
cada altar selvagem, virgem...
forjado pela mãe de todos nós,

vejo e sinto os meus versos transformarem-se em últimos suspiros
fecho os olhos...e sinto o calor do sol a esvair-se enquanto morre,
contemplo a mulher lua,
que brilho, toda vestida de seda, toda aprumada para a noite
espalha seu sudário branco sobre o mar
com a promessa de rever um novo mundo amanhã,

observo aquele casal,
rodeados por uma multidão, nem reparam,
ele chora
ela não o quer mais...
o mundo para eles não existe
só as lágrimas dele e o pranto dela,

observo o que ninguém vê...
olho para porta do cemitério, junto aos ciprestes,
a mãe leva o filho pela mão
para junto da campa do pai,
vejo a inocência da criança.
a dor no olhar da mãe.

Observo a morte e a vida
gastas, cansadas...
observo a renúncia de um equilíbrio
a vontade perdida da morte gasta
o desejo por encontrar de uma vida.



Pedro Afonso

In "O Gesto do Vento" 

3 comentários:

Anónimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Talvez a unica coisa que falta ao observador, seja observar-se a si proprio...

Anónimo disse...

Fantástica Observação.
A discrição do ambiente que rodeia o observador, os espaços, as pessoas os tempos, as situações...
Maravilhoso deleite beber assim as palavras